Jeitinho na Engenharia?
A Engenharia entre o "Jeitinho" e o Risco Nuclear: Por que o Menor Preço pode custar o nosso Futuro?
No mercado de engenharia brasileiro, enfrentamos um desafio que vai muito além das planilhas de custos ou da complexidade dos projetos: enfrentamos uma barreira cultural. É a mentalidade do "ganha-perde", onde o sucesso de uma negociação é medido pelo quanto o contratante conseguiu comprimir o valor do profissional, ignorando que, na engenharia, a economia de hoje é o passivo — e muitas vezes a tragédia — de amanhã.
1. A Herança do "Sinhô" e a Desvalorização do Saber
Ainda vivemos os resquícios de uma estrutura social onde o prestador de serviço é visto como um executor subalterno, e não como um consultor estratégico. Essa relação de arrogância, herdada de uma cultura colonial, reflete uma postura de superioridade de quem contrata sobre quem executa.
É comum vermos o contratante que sente a necessidade de "ficar em cima" do profissional — seja de um pedreiro ou de um engenheiro — cobrando cada minuto como se o trabalho só andasse sob vigilância. Quando você não confia no profissional que contratou, você não está comprando engenharia, está tentando comprar obediência. Essa postura estagna a sociedade. Enquanto o foco for a vantagem imediata e a desconfiança, perdemos a oportunidade de desenvolver soluções inovadoras que tragam longevidade e eficiência real.
2. A Ilusão da Commodity: O Perigo no Setor Elétrico e Solar
No setor de energia solar, há uma tendência perigosa de tratar sistemas complexos como simples mercadorias. No entanto, uma usina fotovoltaica não é um eletrodoméstico que se tira da tomada se der defeito; é um sistema vivo de geração de energia sobre o teto de uma família ou empresa.
Ao nivelar o serviço pelo menor preço, negligencia-se a precisão técnica, a qualidade dos componentes de proteção e, acima de tudo, a segurança contra incêndios e falhas de arco elétrico. Vender engenharia como se fosse commodity é um erro que compromete o patrimônio e a vida. Sistemas elétricos devem ser valorizados pela qualidade e segurança, e não pelo leilão do valor mais baixo.
3. O Exemplo do Setor Nuclear: Onde o Erro não tem Margem
Para entender a importância da valorização técnica, basta olhar para a área nuclear. Nela, a margem para "negociar qualidade" é zero. A rigidez da fiscalização e o rigor absoluto dos protocolos existem porque o risco é total. Ninguém pede um "desconto" em uma inspeção de radioproteção em troca de menos segurança, pois sabe-se que ali a falha é catastrófica.
A pergunta que deixo é: por que aceitamos essa margem de negligência no setor elétrico convencional? O risco de um incêndio por má instalação solar ou um curto-circuito industrial é tão real quanto os riscos em ambientes controlados. A diferença reside apenas na percepção cultural do perigo. Precisamos transpor o rigor do setor nuclear para toda a prestação de serviço técnico.
4. O Exemplo para os Filhos e o Futuro do Brasil
O mais grave dessa cultura de desvalorização e "jeitinho" é o que estamos ensinando para a próxima geração. Nossos filhos nos observam. Se eles crescerem vendo que o "sucesso" é tirar vantagem do prestador de serviço ou que o conhecimento técnico deve ser tratado com desdém, eles replicarão esse modelo de mediocridade.
O resultado é um país que não sai do lugar, onde os melhores talentos desistem da técnica ou buscam valorização fora do Brasil. Quebrar esse ciclo exige uma mudança de postura hoje:
Contratar pela Competência: Escolher pelos resultados e garantias, permitindo que o profissional execute sua função com autonomia.
Respeito à Autoridade Técnica: Entender que o engenheiro detém um saber que visa proteger o contratante.
Educação pelo Exemplo: Mostrar aos nossos filhos que o progresso nasce do respeito mútuo e da excelência.
Conclusão: Engenharia é Gestão de Risco, não Leilão
A verdadeira liberdade e o desenvolvimento do Brasil não virão de grandes obras, mas de uma mudança de mentalidade: quando passarmos a valorizar o conhecimento do próximo tanto quanto valorizamos o nosso próprio patrimônio.
A engenharia de qualidade não é um custo, é um seguro para o seu futuro. Sairemos da era do "jeitinho" para a era da excelência quando entendermos que, na busca pelo menor preço a qualquer custo, quem acaba saindo caro é o futuro da nossa sociedade.
*Homenagem e Dedicação: O Exemplo de Wilson Sanfelice*
Não poderia encerrar esta reflexão sem prestar uma homenagem a quem viveu, na prática, tudo o que defendi nestas linhas. Dedico este artigo à memória de Wilson Sanfelice, carinhosamente conhecido como Wilsão.
O Wilsão foi, sem dúvida, um dos melhores clientes que tive a honra de atender, mas, acima de tudo, foi um ser humano espetacular. Em um mercado muitas vezes contaminado pela arrogância e pela busca desenfreada pela vantagem individual, ele se destacava como um exemplo vivo de que é possível ser grande mantendo a humildade.
Ele nunca se sentiu superior; pelo contrário, valorizava o serviço alheio com uma integridade rara. O Wilsão entendia que o progresso de uma sociedade não nasce de quem "tira vantagem", mas de quem respeita e promove a qualidade do trabalho do próximo.
Deixo este registro para as próximas gerações e, especialmente, para o seu filho. Que ele saiba que seu pai foi o antídoto contra a cultura da desvalorização. Wilson Sanfelice provou que a verdadeira evolução humana e profissional acontece quando tratamos a técnica com respeito e as pessoas com dignidade.
Wilsão, seu exemplo de ética e humanidade continuará guiando nossa busca pela excelência. Muito obrigado por tudo.
Julio Crepaldi Neto.


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